Olhar de cima, olhar de baixo, revirar os olhos, sustentar o olhar, desviar o olhar, olhos esbugalhados, olhos cansados, olhos de ressaca, olhos nos olhos, olhos de peixe morto, olhar com o canto dos olhos, pecar com os olhos… São tantas, se não infinitas, as expressões encontradas sobre à expressividade do olhar. Não bastando, a par, há também a expressividade dos olhos, cuja impressão, há de fornecer, como um pano de fundo que apresenta informações sobre a comunicação não-verbal do sujeito e/ou sobre as próprias fantasias e percepções de quem o observa.

Machado de Assis, em sua célebre obra Don Casmurro, caracterizou os olhos de Capitu como “olhos de cigana oblíqua e dissimulada”. Vale observar que esta descrição dialoga não só com todo o efeito de desconfiança resultante de alguns comportamentos que conhecemos de Capitu, como corrobora com toda desconfiança apresentada pela subjetividade do narrador.

Vestígios Emocionais

É também pelos olhos e seus movimentos que fenômenos como atração, desinteresse, motivação e sedução são revelados com vestígios do comportamento emocional. No dia-a-dia também encontramos o que chamei de olhar de verificação, que tem uma direção específica e busca verificar/conferir a percepção (geralmente a nível de aprovação/desaprovação e/ou percepção/não percepção) de outrem, após uma fala, ato ou outro comportamento observável e encontramos o olhar fujão que se esconde, desviando e diminuindo o contato, por exemplo, durante a experiência de vergonha.

expressão emocional do olharCostumo dizer que quando a emoção é verdadeira, o corpo grita e, sendo assim, os comportamentos emocionais do olhar são corroborados, quando verdadeiros, por movimentos congruentes de outras partes do corpo, como cabeça, expressões faciais e gestos, por exemplo.

É atribuída à Nicolau Maquiavel a frase “o primeiro método para estimar a inteligência de um governante é olhar para os homens que tem à sua volta” e, para além de todas as informações políticas, de relação e de poder que Maquiavel aponta nos serem capazes de apreendidas apenas por meio de um olhar atento, vale lembrar que é por meio dos olhos que muitas informações do mundo externo adentram o nosso mundo interno e ganham significado. Os olhos não são a janela da alma, como muitos dizem, mas são o espelho do cérebro e, mais do que isso, são os mensageiros do cérebro.

Hoje sabemos, pelas neurociências, que o olho é um pedaço migrante do próprio cérebro, a nível de função e estrutura, e é responsável pela captação e transdução da energia luminosa em energia capaz de ser interpretada e assimilada pelo córtex cerebral. É verdade que a realidade nos chega também pelas outras vias sensoriais, o tato, a audição, o paladar, o olfato, a cinestesia etc., mas os olhos, além de captarem e discriminarem a maior parte dos estímulos visuais que nos alcançam, também nos fascinam e portam mistérios em diversos níveis. Por exemplo, nas literaturas sobre a psicologia da percepção e nas neurociências, é comum a o grande volume de informações acerca do comportamento ocular, em comparação com os demais órgãos sensoriais e, além de ser este, em teoria, apenas mais um órgão sensorial, é mais comum que as pessoas “se apaixonem” pelos olhos de alguém, ao invés das orelhas e ouvidos, por exemplo, salvo os fetiches e parafilias que tem um alvo específico em assunto sexual e dizem respeito a outros fenômenos.

Seja para ver ou para ser visto, a porta do olho é a pupila. É por ela que a luz entra e nos possibilitar ver tanto o belo quanto o feio, o lindo e o horrível. Sobre o comportamento pupilar, muito nos interessa a nível emocional. A contração e dilatação da pupila são comportamentos reflexos (ou respondentes) e, assim sendo, a espécie humana não possui controle voluntário. A dinâmica da pupila pode ser causada por alterações na iluminação do ambiente e por alterações neuro-psico-fisiológicas. Hoje sabemos que a experienciação de emoções resulta em alterações no diâmetro da pupila, o que se torna um dado, quando acessível, de grande importância durante a investigação de um comportamento emocional espontâneo ou fingido, uma vez que a dilatação e contração pupilar não são possíveis de serem autorregulados à nível da consciência e da vontate. Sobre as pupilas ainda, e graças ao pesquisador alemão Eckhard Hess e seus estudos, hoje sabemos mais sobre seu funcionamento emocional e também sobre seu efeito e influência naquilo que diz respeito às funções de atratividade e sedução, onde, por exemplo, as pupilas grandes mostraram-se as mais sedutoras, independentemente de estarem em faces masculinas ou femininas.

Lágrimas de Tristeza e de Alegria

As lágrimas também são fenômenos relacionado aos olhos e são poderosos vestígios emocionais. Encontramos não só lágrimas de tristeza, mas também de alegria, de bocejo e as chamadas “lágrimas de crocodilo”, ou lágrimas falsas.

olhos olhar emoção emoçõesEm curso, é comum me perguntarem qual a diferença entre as lágrimas de tristeza e as lágrimas de alegria. Quando estudamos o FACS e o EMFACS fica mais fácil para compreender isso. Por meio do estudo científico da expressão facial da emoção, passamos a conhecer não só as unidades de ação, marcadores faciais e alterações de aparência específicas, como também os músculos faciais correspondentes a esses comportamentos. Desta forma, encontramos a Action Unit 6 (AU 6) – movimento de elevar as bochechas e correspondente ao músculo que circunda os olhos orbicularis oculi (em destaque laranja na imagem) – comum à experienciação da alegria e da tristeza mais intensa. E é justamente a contratação deste músculo que pressiona o saco lacrimal, produzindo as lágrimas, sejam de tristeza ou de alegria. Quando a alegria inclui não apenas sorrisos, mas também risos, o aparecimento das lágrimas é mais comum. E quando bocejamos e pressionamos o músculo orbicularis oculi, produzimos as lágrimas de bocejo, sem valor emocional, a nível das emoções básicas, mas que pode ser um vestígio do estado interno sonolento, cansado ou tedioso, por exemplo.

Os Olhos e a Detecção de Mentiras

Outro assunto que aparece com frequência diz respeito ao movimento dos olhos e correlações com relatos verdadeiros ou enganosos. Este é um assunto que ganhou muita repercussão e mídia com afirmações da PNL que relaciona movimentos oculares específicos com a evocação de uma lembrança/sensação ou com a criação de uma história. É importante dizer que não haviam sido feitos estudos científicos que confirmassem ou refutassem essa teoria, mas hoje já temos evidências científicas que apontam para a não procedência dessas afirmações vindas da PNL.

Digo mais uma vez, quando a emoção é verdadeira, o corpo grita e, sendo assim, quando alguém está vivenciando uma emoção, seus comportamento emocionais manifestos são congruentes no olhar, expressão facial, postura, gestos, voz etc. Quando há mentira, engano, dissimulação, farsa, omissão e essa vai de encontro à uma emoção a ser ocultada, o corpo gritará e revelará a verdade para quem tiver olhos treinados e atentos.

olhos e emoções

(Lágrimas de tristeza. Comportamento facial simétrico, congruente e verdadeiro)

Referências

Ekman, P. (2003). Emotions revealed: recognizing faces and feelings to improve communication and emotional life. New York, NY: Times Books.

Ferreira, C. (2017). Músculos Indicados & Action Units (MIAU). São Paulo: CICEM.

Freitas-Magalhães, A. (2015). O poder do olhar. Porto, Portugal: FEELab Science Books.

Lent, R. (2010) Cem bilhões de neurônios?: conceitos fundamentais de neurociência. São Paulo: Ed. Atheneu.

Wiseman, R., Watt, C, ten Brinke, L., Porter, S., Couper, S-L, & Rankin, C. (2012) The eyes don’t have it: Lie detection and neuro-linguistic programming. PLoS ONE 7: e40259.

Por Caio Ferreira

Para saber mais

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  comunicação não-verbal linguagem corporal  

 


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