O que é? O que permite? Como analisar?

A comunicação não-verbal é o campo de investigação que se debruça sobre aspectos como expressões faciais, postura, tom de voz, utilização dos espaços por corpos, gestos, aparência e outros elementos do comportamento e da comunicação humanas, para analisar e interpretar mensagens codificadas que são emitidas em todas as relações e interações humanas.

O que a comunicação não-verbal permite

Ela permite, entre outros exemplos, a identificação das verdadeira reações, intenções e motivações de uma pessoa, ao passo em que o corpo e a face revelam, ainda que se tente ocultar com palavras e dissimulações, a verdade em alguma situação. Seu estudo também possibilita identificar e reconhecer as emoções básicas dos outros, de modo confiável e científico, quando a análise é feita do ponto de vista da expressão facial da emoção, com a devida aplicação do Facial Action Coding System (FACS) – atualmente, outros estados internos como emoções secundárias, sentimentos e avaliações da dor, já são possíveis de serem mensurados por meio desta ferramenta e vem ganhando inúmeros campos de aplicação.

O estudo da comunicação não-verbal e a compreensão das mensagens que os comportamentos não-verbais emitem, também aponta para contribuições no campo dos estudos sobre os efeitos da percepção da primeira impressão, atratividade, liderança, dominância ou submissão, extroversão e introversão, bem como nos terrenos da paquera e sedução, negociação e vendas, justiça e segurança, entre outras.

 

(Figura 1: Exemplos da comunicação não-verbal em um casal íntimo, em lutadores profissionais e em um grupo de monges)

A Comunicação não-verbal na mídia

Lie to Me

(Imagem retirada da internet)

Um dos grandes sucessos midiáticos que abordou a a temática foi o seriado Lie to Me, exibido pelo canal de televisão FOX entre 2009 e 2011, que retratou a rotina de um especialista em comunicação não-verbal, auxiliando na investigação e na solução de crimes ou outros tipos de conflitos, como consultor que, muitas vezes, apenas olhando para uma pessoa, consegue deduzir ou interpretar fenômenos e estados internos que passam despercebidos pela maior parte da população.

O seriado é ficcional mas apresenta uma base científica constante em seu pano de fundo, pois foi inspirado no trabalho de Paul Ekman – que é um psicólogo que rodou o mundo estudando a expressão facial das emoções. Todavia, não transforma ninguém em um detector de mentiras, por exemplo e não dispensa estudos teóricos e práticos – que são fundamentais para se aprender cientificamente e de forma adequada a analisar as condutas não verbais das pessoas

Como analisar a comunicação não-verbal

Alguns dos fenômenos que se deve ter atenção para fazer uma análise e interpretação da comunicação não-verbal são:

– Linha de base (baseline) e contexto: tanto no que diz respeito às expressões faciais quanto aos demais comportamentos observáveis nas pessoas, é crucial ter em vista aquilo que é habitual e padrão no repertório desta. Chamamos isto de linha de base ou baseline. O especialista em comunicação não-verbal traça a baseline do sujeito para fazer sua análise de forma adequada e poder relatar os comportamentos que realmente tem valor emocional ou significativo. O contexto daquele que emite a ação que se deseja decifrar também deve ser levado em consideração naquilo que diz respeito à: cultura, idade e gênero, por exemplo.

comunicação não verbal

(Imagem retirada da internet)

– Proxêmica: este é o nome que se dá para o estudo da utilização dos espaços por corpos. A forma como as pessoas afastam-se, aproximam-se, ocupam ou evitam ocupar o espaço em que estão inseridas revelam muitas mensagens sobre, por exemplo, sua intimidade ou desconforto frente a um lugar ou a uma situação específica. Também costuma ser classificada como íntima, pessoal, social e pública, de acordo com os estudos do antropólogo Edward T. Hall.

– Paralinguagem: a voz, para além das palavras, também é analisada na comunicação não-verbal e é responsável por revelar vários vestígios emocionais. Alguns pontos observados pela paralinguagem são as pausas, hesitações, intensidades da respiração durante a fala, o tom de voz e suas oscilações, a intensidade (ou volume) da voz, a frequência das palavras, os “cacos” e “vícios” da que acompanham a fala, entre outras emissões vocais, como a tosse, o riso, o bocejo, o grito etc.

– Cinésica: este tópico dialoga diretamente com a linguagem corporal, ao passo em que a cinésica estuda os movimentos do corpo e, portanto, compreende as expressões faciais, os movimentos de braços, pernas e pés, e também os gestos das mãos.

– Expressões faciais: apesar de este ser um sub-tópico que diz respeito à cinésica, as expressões faciais merecem destaque pois, ao contrário do resto da linguagem corporal, possuem uma ferramenta científica internacional de mensuração, com amplo consenso científico, chamada Facial Action Coding System (FACS) e a análise científica das expressões faciais permite a detecção das emoções básicas, das microexpressões faciais e das incongruências emocionais (mentiras), entre outros exemplos.

Além do material que é produzido no CICEM para fins de difusão, ensino e pesquisa, também realizamos diversas parcerias científicas com laboratórios de todo o mundo e separamos uma das bases de dados que nos enviaram (DaFEx – a Database of Kinetic Facial Expressions), pois esta concilia, com exemplos em vídeo, o comportamento emocional da expressão facial e da paralinguagem, que citamos acima. Os 3 seguintes vídeos apresentam uma modelo humana falando a mesma frase, porém com as distintas e respectivas expressões emocionais da raiva, tristeza e alegria:

 

Referências

Battocchi, A.; Pianesi, F.; Goren-Bar, D.. A First Evaluation Study of a Database of Kinetic Facial Expressions (DaFEx). Proceedings of the 7th International Conference on Multimodal Interfaces ICMI 2005, October 04-06, 2005, Trento (Italy), pp. 214-221. ACM Press New York, NY, USA.

Battocchi, A.; Pianesi, F.; Goren-Bar, D.. The Properties of DaFEx, a Database of Kinetic Facial Expressions. In Jianhua Tao, Tieniu Tan, Rosalind W. Picard (Eds.): Affective Computing and Intelligent Interaction, First International Conference, ACII 2005, Beijing, China, October 22-24, 2005, Proceedings. Lecture Notes in Computer Science 3784 Springer 2005, pp. 558-565.

Ekman, P. & Friesen, W. (1976). Origen, uso y codificación: bases para cinco categorías de conducta no verbal, in Eliseo Verón (Editor In-Chief), Lenguaje y comunicación social, Buenos Aires: Nueva Visión.

Ekman, P. (2003). Emotions reavealed. New York: Times Books.

Ferreira, C. (2016, Novembro) A expressão facial das emoções básicas. Poster apresentado no XVI Congresso Nacional de Iniciação Científica. São Paulo, Brasil.

Knapp, M. L. & Hall, J. A. (1999). Comunicação não-verbal na interação humana. São Paulo: JSN Editora.

Maziero, C.; Ferreira, C.; Marcolan, A.; Oliveira, A.; Mendes, V.; & Freitas-Magalhães, A. (2016). Facial Action Coding System: Current Approaches to Psychosocial Implications and Applications. In A. Freitas-Magalhães (Ed.), Emotional expression: The brain and the face (Vol. 8, pp. 245-278). Porto: FEELab Science Books.

Para saber mais

Por um mundo mais emocional!

comunicação não-verbal linguagem corporal

 

 


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