Primeiramente, ao se falar sobre sorrisos falsos e verdadeiros, é necessário referir que quando se fala sobre sorriso verdadeiro (ou duchenne smile ou genuine smile ), fala-se sobre o sorriso que está associado à exibição facial genuína/epontânea da emoção básica universal positiva alegria, fala-se de um sorriso que é, em resumo, simétrico, involuntário, realizado por músculos faciais específicos em durações e intensidades que são congruentes e correspondentes a um estado emocional específico (alegria); por outro lado, o chamado sorriso falso (ou fake smile) se relaciona com as expressões populares “sorriso amarelo” e “sorriso forçado” e diz respeito ao sorriso que aparece durante a simulação facial da alegria, visto frequentemente nas interações/relações pessoais/sociais, e muito interessante do ponto de vista teórico, pois aponta não só para a função expressiva do sorriso, mas também para sua função reguladora que acontece para influenciar a inserção na estrutura psicossocial.

O Sorriso Duchenne

Um dos estudos paradigmáticos sobre a ciência da expressão facial foi realizado por Guillaume-Benjamin-Amand Duchenne (1806 – 1875), ou apenas Dr. Duchenne, como é mais conhecido. Esse neurologista francês contribuiu com grandes investigações sobre a face humana e sobre a expressão facial da emoção.

sorriso duchenne smile - sorriso falso e sorriso verdadeiro

Exemplos de imagens de sorrisos registrados durante o estudo de Duchenne. Contido em: Duchenne, G. B. A. (1862).

Uma de suas contribuições, que nos interessam para o post de hoje, veio com seu estudo sobre o sorriso e o riso da alegria. Duchenne observou, por meio de eletroestimulação, a contração do par de músculos faciais Zygomatycus Major – responsáveis pela mímica facial do sorriso – e também analisou o a expressão do mesmo sujeito, após contar uma piada para esse.

Ele notou que na expressão resultante da piada havia, para além da ação do Zygomaticus Major (afetando a aparência da boca), também ação do músculo Orbicularis Oculii (afetando a aparência das pálpebras e da bochecha). Isso foi registrado em imagens correspondentes às pranchas 31 e 32 da imagem acima.

Sorriso com “Pés-de-Galinha” e Sorriso Falso

facial action coding system

Músculos contraídos durante a exibição facial genuína da emoção básica alegria. Contido em: Ferreira, C. (2017b).

Talvez você já tenha ouvido ou lido em algum lugar que “o sorriso verdadeiro produz pés-de-galinha”. Para quem não sabe, os “pés-de-galinha” é uma expressão usada para indicar a presença de rugas na parte lateral externa aos olhos.

É importante dizer que essa não é uma frase muito assertiva, pois não é raro encontrar sorrisos falsos que apresentam os tais pés-de-galinha e, sendo assim, se basear nisso pode levar a conclusões errôneas sobre a natureza do sorriso. Todavia, a contração do músculo Orbicularis Oculii facilita a exibição de rugas específicas na região dos olho e essas nos interessam perceber.

Há vários tipos de sorrisos falsos (fake smile), todavia, eles são facilmente identificáveis por codificadores que percebem sua assimetria, incongruência entre face superior (upper face) e face inferior (lower face), correspondência em Action Units (AUs) específicas em durações e intensidades específicas, por exemplo.

sorriso de alegria FACS Facial Action Codign System

Exemplos de sorrisos falsos e duchenne smile (controlado de forma voluntária em laboratório – AU6+AU12+AU25) representados em face humana. Contido em: Ferreira, C. (2017a).

A Mensuração Científica da Face Humana

Para estudar os comportamentos faciais, de forma metódica, precisa e científica, foi criado o Facial Action Coding System (FACS), por Paul Ekman e Wallace Friesen, nos anos 70, após anos de investigações transculturais sobre a expressão facial das emoções. O método permite, em resumo, analisar e medir qualquer expressão facial realizada por qualquer pessoa da Terra. Baseia-se, principalmente, em Unidades de Ação (Action Units), que correspondem a um ou a um conjunto de músculos da face humana. Seu estudo possibilita diferenciar, com facilidade, o sorriso verdadeiro e o sorriso falso no dia-a-dia.

Facial Action Coding System

Exemplo das ações faciais correspondentes às Action Units (AUs) da Face Superior. Contido em: Ferreira, C. (2018a)

Estudar a anatomia da face é de fundamental importância para se analisar e interpretar as ações e expressões faciais. Por meio do estudo do FACS e por esse ser uma ferramenta científica, o movimento facial é codificado e tem uma origem muscular específica, que resulta em uma alteração de aparência específica. Quando se sabe quais são exatamente os músculos que compõem uma determinada expressão facial, isto é, suas ações simétricas, assimétricas, isoladas, combinadas, além de suas durações e intensidades, tem-se a segurança para fazer interpretações rigorosas e assertivas.

É sabido, por exemplo, que existem emoções básicas cujas expressões faciais são partilhadas de forma inata e universal e acionam os mesmos músculos da face, em qualquer indivíduo da espécie humana, independentemente de sua condição sócio-cultural, então, quando se dispõe de recursos científicos feitos para analisar isso, deixa de ser enganado por “pés-de-galinha”.

expressão facial da emoção 7 emoções faciais

Exemplos das 7 emoções básicas universais representadas em face humana. Contido em: Ferreira, C. (2017a).

O Sorriso como Máscara Social

Para além da relação com a exibição facial da alegria, o sorriso também aparece, frequentemente, nos contextos de mentira e dissimulação, isto é, na mentira, encontramos o duping delight, que diz respeito ao prazer experienciado pelo mentiroso, durante o ato ou o planejamento do engano, por exemplo, e este pode ser denunciado por um tipo muito particular de sorriso e apanhado assim por codificadores treinados.

Exemplo de representação do que Paul Ekman chamou de “Miserable Smile”. Um tipo particular de sorriso que, diferente do sorriso falso, não tem a intenção cobrir uma emoção negativa e comunicar ao outro a experienciação de emoções e sensações plenas ou positivas. Neste sorriso, a pessoa comunica a insatisfação, o estresse e/ou desconforto. Contido em: Ferreira, C. (2018b)

O chamado sorriso social, ou sorriso forçado, pode tanto ter relação com as display rules (regras de exibição ou costumes), quanto com as incongruências emocionais, ou seja, pode estar relacionado aos hábitos culturais específicos e variáveis de sociedade para sociedade frente alguma situação, ou então aparecerem com a intenção de mascarar a exibição corporal de uma emoção negativa, isto é, deliberadamente enganar o outro.

 

Uma vez que o sorriso está associado à alegria e às sensações positivas, é comum que uma pessoa, ao vivenciar uma emoção negativa (como a raiva, aversão ou medo, por exemplo) e buscar esconder do outro aquilo que, de fato, está sentindo, recorra ao sorriso. O sorriso é um dos primeiros instrumentos de organização do psiquismo humano e o bebê, por exemplo, começa aprender desde cedo o valor e as recompensas que recebe quanto exibe o sorriso. Ele também é a emoção mais facilmente reconhecida pela população em geral e, ainda que existam culturas onde “as pessoas sorriem quando estão tristes”, isto está relacionado com o exposto acima e esse sorriso é completamente diferente do sorriso duchenne.

O Poder do Sorriso

O poder do sorriso também aparece nos contextos de sedução e dominação e tem implicâncias no efeito de persuasão de uma pessoa. Certo estudo, uma vez mostrou que delinquentes homens em julgamentos por crimes não muito severos, que sorriam mais, tiveram penas reduzidas frente a juízas do sexo feminino, em comparação aos que não sorriam. Não houve efeito em juízes do sexo masculino para este estudo.

O sorriso apresenta variações de gênero, idade e cultura. A literatura aponta, por exemplo, que as mulheres sorriem mais, mais intensamente e com maior frequência do que os homens. Ao falar de sorriso, também se fala do sorriso superior, sorriso aberto e sorriso fechado, sendo que o sorriso fechado mostrou-se o mais sedutor; encontrou-se que as mulheres empregam mais o sorriso aberto; e os homens, principalmente mais velhos, empregam mais o sorriso fechado. Mas este é assunto para outro post…

Sem mais, mostre-me como sorris e te direi quem és.

Por Caio Ferreira

Referências

Darwin, C. (2009). A expressão das emoções no homem e nos animais. (Leon de Souza Lobo Garcia, Trad.). São Paulo: Companhia das Letras. (Obra original publicada em 1872).

Duchenne, G. B. A. (1862). Mécanisme de la physionomie humaine, ou analyse électro-physiologique de ses différents modes de l’expression. Paris: Archives générales de médecine.

Ekman, P. (2003). A linguagem das emoções: revolucionando sua comunicação e seus relacionamentos reconhecendo todas as expressões das pessoas ao redor. São Paulo: Lua de Papel.

Ekman, P. & Friesen, W. V.(1982). Felt, false, and miserable smiles. Journal of Nonverbal Behavior, 1982, 6 (4), pp. 238-252.

Ekman, P.; Friesen, W. V.; & Hager, J. C. (2002). The Facial Action Coding System. (2nd ed.) Salt Lake City, UT: research Nexus ebook.

Ferreira, C. (2017a). As Faces das Emoções Básicas (FEB). São Paulo: CICEM.

Ferreira, C. (2017b). Os Músculos das Emoções Básicas (MEB). São Paulo: CICEM.

Ferreira, C. (2018a). Ações Faciais, Ações Musculares e Action Units (AFAMAU). São Paulo: CICEM.

Ferreira, C. (2018b). Base de Dados CICEM: O Sorriso em Suas Variações (CICEM-SV). São Paulo: CICEM.

Freitas-Magalhães, A. (2006). A psicologia do sorriso humano. Porto: Edições Universidade Fernando Pessoa.

Para saber mais

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