Modelo ROPE: uma alternativa para a entrevista em tempo real   Atualizado recentemente!


Na falta de um modelo próprio para o policial de campo, que não se emoldure no Step-Wise Interview, Reality Interview do ACID, da Entrevista Cognitiva, REID, etc., ou em uma salada de frutas do que é uma metodologia de aplicação em polícia ostensiva, apresento uma sugestão para um modelo de entrevista em tempo real como trabalho de conclusão de curso para a pós graduação em comportamento não verbal e análise de credibilidade.

Vejamos o motivo para precisarmos de uma adequação: o PEACE foi criado e desenvolvido levando em consideração um ambiente específico, como uma continuação à EC; a Entrevista Cognitiva traz aplicações que não se encaixam na realidade ostensiva em tempo real (como o uso de mnemônicos, por exemplo); EC melhorada muito foca na testemunha; o CBCA nasce para acessar a credibilidade de depoimentos de crianças que sofreram abuso; o SCANR (que de tempo real não tem nada), não é operacionalizável; o REID é acusatório e de eficácia bastante questionável; do conceito questionável sobre começar a entrevista com “possíveis verdades”; a duvidosa necessidade de estabelecer uma baseline; da impossibilidade de aplicação de uma mudança de perspectiva; da sobrecarga cognitiva e confusão, seja em honestos e mentirosos, que o relato em ordem inversa pode causar durante a entrevista em tempo real; do erro em buscar a dissimulação pela análise comportamental; das técnicas de reconstrução de contexto ou qualquer outra que aposte em remanescências; o tempo curto de entrevista; o contexto (muitas vezes caótico); a falta de rótulo para o entrevistado; etc. Não parece ter sido criado, até hoje, modelos de entrevista específicos para a polícia ostensiva e para a entrevista em tempo real (e, neste ínterim e contexto, também para a análise de credibilidade).

Há uma ingente diferença em entrevistar testemunhas, vítimas e suspeitos e entrevistar um abordado pela polícia ostensiva que não se encaixe, necessariamente, dentro destas classificações. Mais ainda, chama atenção que não há construção teórica ou doutrinaria que se ocupe em entender a entrevista com o objetivo de angariar informações para que se construa a percepção do que pode ou não ser suspeito.

As metodologias de entrevista, sejam quais for, entendem a entrevista como um modelo a ser aplicado em quem já possui um rótulo: suspeito que será interrogado; possíveis testemunhas; e eventuais vítimas. E como tratar quem eu ainda não sei se é vítima, se é testemunha ou se é suspeito?

O que temos hoje são conhecimentos esparsos, sem um modelo de aplicação próprio, debruçados em décadas de pesquisa, aplicados ou não individualmente. Naturalmente, não quero aqui criar confusão entre o que é ferramenta de acesso da credibilidade ou veracidade, modelo de entrevista, metaprotocolo, etc., mas apresentar uma ideia do que pode (e como pode) ser aproveitado para análise e eliciação do discurso.

Grande parte do que funciona e do que é referência em condução investigativa, com décadas de estudos e desenvolvimento, está descrito nas metodologias PEACE e Entrevista Cognitiva (criadas por volta da década de 80 na Grã Bretanha e Estados Unidos, respectivamente). Neste pequeno artigo, não entrarei nas minúcias do modelo que proponho e muito menos em um detido esquadrinhamento das metodologias que são pedra fundamental para o desenvolvimento de qualquer modelo de entrevista. Até o final do ano, meu trabalho de conclusão de curso (já terminado) será publicado na forma de livro e estará disponível para quem melhor quiser entender as dificuldades sobre o tema.

Quero indicar que não há uma metodologia específica, direcionada para a polícia ostensiva e, muito menos, uma construção do que serve ou não para a aplicação em tempo real; mais ainda, não há a indicação de uma entrevista a ser realizada em quem ainda não foi rotulado como vítima, testemunha ou suspeito, dentro do contexto policial. Tudo que existe é uma aplicação adaptada e individualmente interpretada do que é a entrevista em tempo real, sem rigor metodológico.

Nem toda abordagem é feita na forma de fundada suspeita. Muitas vezes, trata-se de uma abordagem de verificação (uma abordagem de um guarda municipal, de uma fiscalização de trânsito, de uma “balada segura”). Nestes casos, justamente, o entrevistado não possui o rótulo de vítima, testemunha ou suspeito.

Além disso, a entrevista em tempo real realizada ostensivamente é relativamente curta (dificilmente passará de que quinze minutos). Nenhum modelo de entrevista traz um protocolo para a entrevista que dure tão pouco tempo.

Um roteiro simples do que pode dar certo. Um guia de como conduzir, de forma descomplicada e apropriada, uma entrevista de rua em tempo real. Este protocolo chamo de ROPE e não se trata, necessariamente, de um passo a passo. Explicarei em minúcia no livro, mas trago a explicação básica do conceito.

Modelo ROPE:

 

  • Rapport, mediante a introdução de assuntos periféricos, self-disclosure, temas triviais e gerando conexão, etc. Assunto que rende cerca de 25 páginas do livro e tema central de uma entrevista que elicia informações;

 

  • Observação e avaliação comportamental: tratar a baseline variável e emergente como qualquer comportamento anterior e posterior a um estímulo, com estabelecimento circular, interpretando-a com base em características da personalidade. Observar psicofisiologia (e demais discursos latentes que se tenha conhecimento, sem um rigor codificativo ou score definitivo) e realizar uma avaliação geral do quão comprometida a fonte está com a gestão de impressão e com o controle do comportamento. Ao final do artigo, trago a percepção do que insto chamar de discurso latente.

 

  • Perguntas: começar com perguntas abertas, na forma TED, com progressivo afunilamento (W Questions; Heptâmetro de Quintiliano), realizando o teste da informação (probing) e evitando o chamado topic hopping.

 

  • Encerramento e complementação: no caso de resistência do entrevistado em cooperar, complementar o comportamento de forma adaptativa e explicar o processo (na forma da fase Engage and Explain, do PEACE) retornando então para os passos anteriores. No caso da obtenção de informações suficientes, realizar o encerramento (agradecimentos; demais medidas necessárias – tal qual uma busca pessoal, por exemplo, no caso de formulação da fundada suspeita).

 

Se trata de um modelo menos rígido, mas com metodologia delineada (apenas o que é indispensável – rapport; observação e avaliação comportamental; perguntas; e encerramento/complementação). A realização de mnemônicos ou o pedido por mais detalhes (teach to talk) pode ser feito na fase de perguntas, mas não é caminho obrigatório (e aqui não tratarei cada uma das possíveis técnicas de sobrecarga cognitiva ou que apostam na busca por remanescências). A baseline não deve ser “traçada”, mas entendida de uma forma simples (circular e emergente, como reposta a um estímulo e que pode levar em consideração características da personalidade na avaliação, possibilidade de modulação pelo entrevistador e aplicação de roteiro apropriado) – não existe “quebra” da baseline na análise comportamental.

A observação comportamental não segue um rito, um score predefinidio, uma codificação rígida, um número exato de pontos de interesse, mas é simplesmente entendida como uma caixa de ferramentas da análise do discurso, podendo auxiliar o policial a melhor entender o abordado e suas reações pelo fato de estar atento ao discurso latente.

Em relação ao que chamo de discurso latente, é todo comportamento observável e que pode ser avaliado, englobando respostas cognitivas, emocionais, tentativa de controle de comportamento e gestão de impressão. Se trata de uma análise que não possui critério, é subjetiva e não standartizada, justamente porque o objetivo na entrevista em tempo real não deve ser o de detectar mentira. O comportamento, no entanto, deve ser sempre acessado pelo entrevistador, sobretudo o policial, principalmente em razão da segurança.

 

ROPE: Rapport; Observação e avaliação comportamental; Perguntas; Encerramento e complementação. Nada mais que isso.

 

Filipe da Costa Kerber é pós graduado em Ciências Criminais (ANHANGUERA) e Educação Transformadora (PUC/RS). É pós graduando em Comportamento Não Verbal e Análise de Credibilidade (ClueLab/FACSM) e em especialização em Comportamento Não Verbal (SinVerba, Argentina).

 

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.