Divertidamente é, provavelmente, o longa metragem que eu mais assisti repetidas vezes e isso tem a ver com meu projeto de conclusão de curso na graduação em psicologia “Divertidamente: uma análise psicanalítica das personagens-emoções Alegria e Tristeza (2016)“, onde, sob a orientação da MSc .Soraia Dias Ciccone, explorei pontos da obra de D. W. Winnicott, como desevolvimento emocional primitivo, criatividade e self, em interfaces com a narrativa apresentada na animação ficcional. Um filme que, em linhas gerais, considero muito bem feito, seja do ponto de vista da história, da animação e, principalmente, das boas relações para com a psicologia.
Vamos a Alguns Dados e Considerações

Cartaz Divertidamente 2 (Divulgação Disney-Pixar/Reprodução)
O primeiro filme foi lançado em 2015 e dirigido por Pete Docter, que bolou a história e também assinou o roteiro ao lado de Meg LeFauve e Josh Cooley. Vale dizer que Pete também é o responsável pelo brilhante Soul (2020). Agora, quase 10 anos depois, Pete não retorna, nem para a direção, nem para o roteiro. Na sequência de 2024, o longa é dirigido por Kelsey Mann, que soma contribuições no canal Cartoon Network e na própria Disney-Pixar, enquanto o roteiro conta com o retorno da Meg LeFauve e com a contribuição de Dave Holstein, do qual não encontrei informações em uma ligeira pesquisa.
No filme original de 2015, fomos apresentados à nossa heroína Riley Andersen, o que compreendeu ligeiras cenas iniciais ilustrando seu crescimento até os 11 anos de idade, que é onde o filme se desenvolve. Do ponto de vista da narrativa, o roteiro segue uma tradicional jornada do herói, mas com uma execução extreamamente criativa, isto é, compreendendo o mundo comum ordinário; a necessidade de sair desse cenário; as provações e dificuldades ao longo do percurso; e o retorno da personagem mais integrada e fortalecida, e no meio disso, somos contemplados com referências diretas à conceitos como emoções básicas, relação entre memórias e emoções, afetos humanos, inconsciente e até a formação dos sonhos.
Agora, para a sequência de 2024, nossa heroína terá 13 anos e contará com “novas emoções”. Vamos então falar um pouco sobre essa questão.
5 Emoções Básicas X Novas Emoções
No primeiro longa, temos contato com 5 personagens-emoções: Alegria, Tristeza, Raiva, Nojinho e Tristeza. Emoções essas que costumam ser compreendidas, por um grande grupo de psicólogos, enquanto emoções básicas ou primárias. Vale dizer que há profissionais que consideram outras emoções como primárias e básicas, o que inclui mais ou menos emoções e até emoções diferentes, mas, no geral, essas 5 aparecem em diversas literaturas. Para os efeitos didáticos, também há profissionais que entendem que não há emoções básicas universais.
Já para a sequência, de acordo com as imagens dos trailers, podemos observar 5 novas personagens-emoções: Ansiedade, Embaraço, Tédio, Inveja e Nostalgia. Na primeira vez que eu vi as novas emoções eu pensei “caramba, é muito fácil perder a mão” e pensei isso porque as 5 emoções do primeiro filme possuem ampla pesquisa que apontam convergências em suas funções, sensações subjetivas, gatilhos, expressividade e comportamentos motivados – elas são básicas e primárias. E agora? Essas novas emoções possuem muito mais divergência ao longo da literatura e podem ser encontradas tanto como diretamente relacionadas às emoções mais básicas, quanto emoções próprias na categoria das secundárias, complexas ou sociais, ou até mesmo enquadradas enquanto sentimentos.

Novas personagens-emoções (Divulgação Disney-Pixar/Reprodução)
A ansiedade mesmo é um estado que, a depender da literatura, aparece dentro do espectro do medo, que, de acordo com o Atlas of Emotions, é definida como: “Incapacidade de enfrentar uma ameaça real ou imaginária“, mas também pode aparecer como uma emoção distinta que, de acordo com o pesquisador brasileiro Vinicius Borges, PhD, envolve a seguinte experiência: “indivíduo se vê diante da possibilidade de encontro com uma ameaça, que pode colocar em risco a sua integridade“. Esse mesmo pesquisador a diferencia do medo, compreendendo o medo da seguinte forma: “indivíduo se depara com uma ameaça clara, que coloca em risco a sua integridade“.
Não é raro encontrarmos essa questão pela literatura, isto é, relacionando o medo mais com a ameaça reativa e a ansiedade à antecipação ou possibilidade de encontro dessa ameaça. Mas repito: a depender do autor a ansiedade está dentro do espectro do medo e a depender do autor, não está.

Personagem-emoção Nostalgia (Divulgação Disney-Pixar/Reprodução)
E a nostalgia? Um dos trailers mostra a Nostalgia como uma personagem-emoção que será apresentada em Divertidamente 2. Essa emoção não aparece na literatura como uma emoção básica, aqui não tem acordo. Mas ela aparece, a depender do autor, tanto como emoção secundária, como também enquanto sentimento. E é aqui que eu fico meio receoso e pensando que “é fácil perder a mão”, pois no primeiro, o foco estava nas emoções básicas e a dinâmica delas é perfeita. Agora, na sequência, as novas serão enquadradas enquanto emoções secundárias/sociais, ou vai haver algum tipo de mistura com os estados de sentimento? Essa resposta a gente só vai saber depois da estréia.
Do ponto de vista pessoal, entendo que a Ansiedade terá muito destaque no longa, mas eu simpatizei demais com a Nostalgia e espero que ela seja bem aproveitada ao longo das cenas e que tenha muitas cenas.
Consultoria de Ekman X Consultoria de Adolescentes
Uma informação me chamou a atenção nesses dias que é a presença de adolescentes auxiliando o diretor Kelsey para o novo filme. Vale dizer que na produção de 2015 tivemos a consultoria de 2 psicólogos especialistas em emoções humanas, Dacher Keltner, professor de psicologia na Universidade da Califórnia, em Berkeley e Paul Ekman, renomado psicólogo que realizou pesquisas transculturais, principalmente, sobre a expressão facial das emoções, desenvolveu o Facial Action Coding System (FACS) e cuja teoria compreende 7 emoções básicas universais: alegria, tristeza, nojo, raiva, medo, surpresa e desprezo.
Para o novo filme, li uma matéria no Adoro Cinema, que mostrava trechos de uma entrevista concedida pelo diretor, onde esse criou a “Equipe da Riley”.
Não sou mais um adolescente. Já faz um tempo que não sou um. Então pensei que adoraria ter um grupo de adolescentes especialistas”, contou o cineasta. “Fui ao estúdio e disse: ‘Posso ter um grupo de adolescentes que possa ser meu grupo consultivo?’ Então criamos e os chamamos de Equipe da Riley […] Fizemos muitos ajustes com base no que eles nos disseram.
(Colhido de Adoro Cinema)
De acordo com a matéria do site, 9 adolescentes foram incluídos no projeto para assistir as exibições testes e opinar sobre cenas e falas. Eu, particulamente, achei a ideia boa! Creio que pode ajudar na naturalidade do filme, mas não sei se chamaram também psicólogos e/ou neurocientistas para ajudar na nova produção – e se não chamaram, as criativas analogias que vimos no primeiro filme têm menos chance de acontecer na continuação.
Versão Brasileira
Nas incontáveis vezes que assisti o longa de 2015, eu vi dublado. Primeiro porque a dublagem brasileira é boa demais!! E segundo porque era a mídia que eu tinha na época. Minhas conexões neurais já entendem que a voz da Alegria é a voz da Miá Mello, o Medo é o Otaviano Costa, o Raiva é o Leo Jaime, a Tristeza é a Katiuscia Kanoro e a Nojinho é a Dani Calabresa – que elenco!!!
Esse time volta completo para a continuação e ainda conta com a chegada de Tatá Werneck para dublar a ansiedade. Achei uma baita escolha!
Segue a listagem com as demais novas personagens-emoções:
- Inveja (Gaby Milani)
- Tédio (Eli Ferreira)
- Embaraço (Fernando Mendonça)
- Nostalgia (Sylvia Salustti)
Se a gente se encontrar no cinema, será na sala da sessão dublada.
Uma Série Própria Para o Disney+
Por fim, acho legal comentar também que o universo Divertidamente vai ganhar um spin-off em formato de série para a plataforma Disney+. A série vai explorar o departamento de criação de sonhos e pesadelos, que aparece, e bem, no longa de 2015. A produção está confirmada pela Disney e deve chegar no catálogo em meados de 2025. Ainda não há muitas informações sobre o projeto, mas estaremos acompanhando as novidades para atualizar aqui.
Confira o Trailer Oficial Dublado
O filme chega dia 20 de junho nos cinemas brasileiros. Animado? Ansioso?
Referências e Recomendações
- Adoro Cinema – Um grupo de adolescentes fez por Divertida Mente 2 o que nenhum funcionário da Pixar jamais conseguiria
- The Atlas Of Emotions
- Borges, V. F. (2013). Expressão facial de ansiedade: análise do consenso no julgamento de observadores. 34 f. Dissertação (Mestrado em Análise do Comportamento) – Universidade Estadual de Londrina, Londrina, 2013.
- Ekman, P. (2011). A linguagem das emoções: revolucionando sua comunicação e seus relacionamentos reconhecendo todas as expressões das pessoas ao redor. São Paulo: Lua de Papel.
- Ferreira, C. & Joaquim, R. M. (2021). Emoções secundárias: culpa, vergonha e orgulho. In Joaquim, R. M. (org). Neuropsicologia das emoções: caracterização, expressão facial & aspectos psicopatológicos. (pp. 181-192). Belo Horizonte: Editora Ampla.
- Joaquim, R. M. (2021). Neuropsicologia das emoções: caracterização, expressão facial & aspectos psicopatológicos. Belo Horizonte: Editora Ampla.
- Rivera, J. (Producer), & Docter, P. (Director). (2015). Inside Out [Motion Picture]. Burbank: Walt Disney Studios.
Por Caio Ferreira
Estou muito grata em ter conhecido este blog.
Sou muito curiosa sobre este tema, emoções.
Obrigado pelo comentário!
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