Cada vez mais a ciência vem nos mostrando a importância da gestão e do desenvolvimento das competências socioemocionais para o melhor contato e aproveitamento consigo mesmo, com o outro e com o meio compartilhado. Hoje já não basta mais reduzir a inteligência humana ao famoso QI e, além das já mapeadas inteligências múltiplas, as características socioemocionais como empatia, automotivação, autoconhecimento, resiliência, liderança, entre outras, cada vez mais são buscadas e valorizadas.

Emoções, percursos e perspectivas

Costumo dizer que as pessoas são ensinadas, conforme vão crescendo e se desenvolvendo, a andar, a falar, a comer, a brincar, a se vestir, a estudar, a trabalhar, a dirigir, entre outras tantas coisas, mas nunca, ou raramente, são ensinadas a sentir. E, uma vez que as emoções determinam a qualidade das nossas vidas, penso que é sensato e prático falarmos e estudarmos as nossas próprias emoções e as emoções na nossa sociedade. Freud já dizia que “As emoções reprimidas nunca morrem. São enterradas vivas e saem mais tarde da pior forma”. Na época de Freud, o conflito afetivo era tão intenso que as pessoas desenvolviam sintomas como paralisias de membros do corpo, cegueiras, amnésias, afasias (distúrbios da fala), entre outros, que não tinham causa orgânica médica, mas eram decorrentes de um processamento afetivo incompatível entre os desejos e as proibições de emoções envolvidas – a chamada neurose histérica.

Da época de Freud até os dias de hoje o conhecimento sobre as emoções, bem como o sofrimento relacionado a elas caminhou junto com a ciência e a sociedade. Dessa forma, hoje podemos falar de um QE – um quociente emocional – que diferentemente do QI – quociente de inteligência – pode ser desenvolvido e aprimorado ao longo da vida. Mas, por outro lado, também falamos de uma série de patologias emocionais que emergiram, como os transtornos de ansiedade, transtornos de pânico, as depressões e a bipolaridade. Além de fenômenos como a depressão pós-parto, o burnout, o bullying e altos índices de suicídios em jovens, por exemplo.

Principalmente após a fundação da chamada psicologia positiva, foi possível investigar as qualidades, forças e virtudes humanas, sendo que hoje podemos contar não só com a tradicional psicologia reparadora de danos, mas também com a psicologia preventiva e fortalecedora, corroborada pelas mais recentes pesquisas científicas.

A neurociência aponta que o cérebro precisa se emocionar para aprender e algumas escolas pelo mundo já começaram a adotar estratégias para ensinar os alunos a “lidar com as emoções”. Os exemplos apontam que, desde as aplicações mais simples, o desenvolvimento das habilidades socioemocionais resultou em diminuição do preconceito e do bullying, da agressividade para com os professores, além de permitir maior integração da turma, melhoria nos trabalhos em grupo, aumentos na criatividade, motivação, desenvolvimento de relacionamentos saudáveis, compreensão dos vínculos estabelecidos, dos impulsos sexuais e auxílio na criação de valores éticos e morais.

Quais disciplinas podem ajudar a desenvolver as habilidades socioemocionais?

Recentemente, terminei a leitura de um livro chamado Alfabetização Emocional: novas estratégias, de Celso Antunes, um autor que conheço desde a época da graduação em psicologia, pois ele produziu vários trabalhos com base nas inteligências múltiplas (H. Gardner), que eu utilizei, com muito gosto, em atividades lúdicas durante estágios com crianças.

Nessa obra, ele retoma as teorias de H. Gardner e D. Goleman, apresenta sua proposta de literacia emocional, traz exemplos de casos onde foram aplicados programas para o desenvolvimento de habilidades socioemocionais, e descreve uma série de atividades e dinâmicas que podem ser empregadas com grupos. Quero destacar que o ensino tradicional geralmente envolve as habilidades de: conhecer, compreender, analisar, deduzir, comparar, relacionar, classificar, incluir, excluir, entre outras, mas a proposta do autor, visa também o emprego das chamadas técnicas de sensibilização e técnicas de ludopedagogia, o que envolve as habilidades de: acuidade visual, sensibilidade tátil, paladar, audição qualitativa, motricidade, imaginação, criatividade e principalmente, atenção e concentração.

Todas as disciplinas permitem a preocupação, concomitantemente, com as habilidades socioemocionais (matemática, literatura, história…). As aplicações com estudantes costumam empregar dinâmicas, jogos, filmes e tradicionais rodas de conversa – a depender da faixa etária dos mesmos para aprofundamento dos temas. Na minha prática, pude constatar também que os professores que conseguem “ler” as emoções dos alunos, muitas vezes percebem motivações e interesses genuínos que reforçam o aprendizado e ao amor pelo aprendizado, além de perceber e poder intervir empaticamente sobre conflitos grupais, como exclusões de pares, ou antecipando possíveis desenrolares agressivos, como o bullying.

Como afirma Antunes (1999) “não é a de criar uma nova disciplina, mas a de somar os ensinamentos relativos à Alfabetização Emocional com outras matérias já ensinadas em outras disciplinas“. Vale dizer também que uma vez que os nossos dias são cheios de emoções e que elas dizem muito sobre nós, há um interesse natural nessa viagem de descobrimento e gestão do eu. Isso faz com que as discussões sobre as emoções não se esgotem ou sejam limitadas a questões de memorização e repetição, mas são vividas, experienciadas, atualizadas e compartilhadas.

Ao contrário do que ocorre com os conteúdos curriculares temáticos, os da Alfabetização Emocional não precisam ser “novos” a cada ano. A discussão da emoção, da raiva, da frustração, da sociabilidade, da empatia, do medo e de outros fluxos emocionais eram mantidos e re+trabalhados, apenas as estratégias variavam de um ano para o outro. Em nenhum momento constatou-se que o tema perdia interesse, pois a classe “já havia aprendido o conteúdo”.

(Antunes, 1999, p.42)

E nas escolas brasileiras?

Uma boa notícia é que o Ministério da Educação determinou, por meio da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), que em 2020 as escolas devem implementar programas que contemplem a habilidades socioemocionais. O que implica em trabalhar habilidades intrapessoais (autoconhecimento, autocontrole e automotivação), e também habilidades interpessoais (empatia e relacionamentos interpessoais).

Sobre essa temática, tive o prazer de participar de uma audiência pública na Câmara Municipal de Sorocaba, onde falei sobre os eixos das 10 Competências Gerais da Educação Básica, apresentados no BNCC. Abaixo você encontra a conferência na integra.

Referências e recomendações

Antunes, C. (1999). Alfabetização emocional: novas estratégias. Rio de Janeiro: Vozes.

Ferreira, C. (2018). Estudos sobre a mensuração científica da face humana: vol. 1 – o guia do emocionauta. São Paulo: CICEM Ed.

Ferreira, C. (2019, Outubro). Qual a chave da modificação? a emoção. Apresentação Pública. Conferência em Câmara Municipal de Sorocaba. Sorocaba, Brasil.

Goleman, D. (2012). O cérebro e a inteligência emocional: novas perspectivas. Rio de Janeiro: Objetiva.

Lent, R. (2010) Cem bilhões de neurônios?: conceitos fundamentais de neurociência. São Paulo: Ed. Atheneu.

Rosenwein, B. H. (2011). História das emoções: problemas e métodos. São Paulo: Letra e Voz.

por Caio Ferreira


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