Mentir de Medo: de Que ou de Quem?


De repente, coisas acontecem e você “precisa” mentir para atingir determinados objetivos, como obter vantagens/recompensas, ou evitar constrangimentos e punições, por exemplo. Nesse momento, uma série de processos cognitivos e emocionais tentam corresponder à essa demanda e histórias tendem a ser criadas. Digo histórias, pois a literatura (Ekman, 2009) enfatiza a tendência que as pessoas têm, durante a mentira, de se preocupar mais com o conteúdo verbal, menos com as expressões faciais e, menos ainda, com sua linguagem corporal. É nesse momento que a análise das emoções, com base nos signos não verbais da comunicação humana, aponta direções significativas naquilo que diz respeito à análise de credibilidade e interpretação de congruências/incongruências discursivas. Uma das emoções básicas, comumente, associadas ao contexto da mentira é o medo – o medo naquele que mente, e o medo naquele que é inocente e teme ser julgado de forma injusta.

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MEDO E A MENTIRA

O medo é uma emoção que de acordo com sua intensidade, e o momento em que surge, pode trazer/apresentar algumas consequências, sabemos sobre o medo que esse faz com que alguém fique paralisado, fuja ou corra, e até se esconda. Mas e o medo na mentira? Existe? Leia e saiba mais.

O medo pode ser encontrado quando a pessoa que mente apresenta o medo de ser pego ou descoberto, Ekman chama isso detection apprehension (apreensão de ser detectado) e ele pode levar a pessoa a mentir com cautela, assim executando uma mentira que dificilmente será detectada. Caso o medo atrapalhe ou seja intenso ao ponto de ser visível, ele pode “vazar” e fazer com que a pessoa dê sinais de medo, como gaguejar, hesitar, recuar (posição corporal) e assim em diante, expressando, dessa forma, sinais associados ao medo e que podem denunciar o mentiroso.

MEDO DA MENTIRA (E O ERRO DE OTELO)

otelo erro de otelo paul ekmanO medo da mentira (medo que alguém minta para nós), pode fazer com que tiremos conclusões precipitadas assim podemos até mesmo cometer o que Ekman mostra como sendo o “erro de Otelo” que resumidamente é quando não achamos que a pessoa dirá algo verdadeiro e assim consideramos tudo que ela diz como mentira, independentemente de como, quando ou o quê seja dito.

Acontece que em “Otelo: o Mouro de Veneza”, de W. Shakespeare, somos apresentados a um conflito onde o protagonista acredita que sua esposa, Desdêmona, lhe fora infiel e o traiu com o jovem Cássio. Sua desconfiança era tão grande, que Otelo acabou por atribuir todos os sinais de ansiedade, como correspondentes da mentira. Eram apenas sinais de nervosismo e, mais tarde, ficou evidente que sua esposa não o havia traído.

 

MEDO E SUA INFLUÊNCIA

Por medo muitas pessoas podem mentir, a pessoa pode apresentar medo de ser pega, ou descoberta, porém a motivação por trás disto pode se dar com o medo de: ser punida, receber uma bronca/ser corrigida ou humilhada, perder algo (cargo/salário/presente ou prêmio), ou medo de deixar de receber algo -comum entre as crianças – (ir para o quarto sem sobremesa, não ganhar presente, prêmio e afins), temos também de acordo com Vrij o medo com vergonha de algo que foi feito ou um erro cometido no presente ou passado assim trazendo a mentira com motivação do medo da exposição (Twitter e seus exposed`s são um ótimo exemplo da razão desse medo existir).

Como pudemos notar o medo se faz presente fazendo com que a mentira ocorra com o objetivo de se fugir de algo ou alguém. Mesmo não sendo o medo o único motivo das pessoas mentirem, ele é encontrado em vários casos como principal motivo (Vrij, 2008).

 

EXPRESSÃO FACIAL DE MEDO

O medo envolve ações faciais que são visíveis na região das sobrancelhas, olhos e boca. As sobrancelhas se erguem e se aproximam (AU 1, AU 2, AU 4), as pálpebras superiores são erguidas (AU 5) e a boca é esticada (AU 20).

A imagem GIF ilustra as unidades de ação prototípicas da expressão facial de medo, de acordo com o Facial Action Coding System (FACS). AUs: 1D + 2D + 4C + 5D + 20D + 25D + 26C. Vale dizer que as AUs 25 e 26 podem acompanhar outros protótipos emocionais e dizem respeito, respectivamente, à separação de lábios e queda de queixo.
 

via GIPHY

 “Subitamente a família do Medo estava lá reunida: o Receio, a Ansiedade, o Pavor e o Horror, todos próximos uns dos outros”

(Ferreira)

 

Bons estudos!

 

Por Luis Eduardo Costa Silva e Caio Ferreira

 

REFERÊNCIAS

EKMAN, Paul. Telling Lies: Clues to Deceit in  The Marketplace, Politics and Marriage. Nova Iorque: W.W. Norton & Company Inc., 2009.

Ekman, P. (2009). Telling lies: clues to deceit in the marketplace, politics and marriage. New York: W. W. Norton & Company, Inc.

EKMAN, Paul. Why Kids Lie How Parents Can Encourage Truthfulness. Nova Iorque: Penguim Books, 1991.

Ferreira, C. (2017/2018). As Faces das Emoções Básicas (FEB). São Paulo: CICEM.

VRIJ,  Aldert. Detecting Lies and Deceit: Pitfalls and Opportunities. 2. ed. Inglaterra: John Wiley & Sons, 2008.


Sobre Luis Eduardo Sathler

Graduando de Psicologia Pesquisador das áreas : Neuropsicologia, Autismo, Comunicação Verbal e Não Verbal, Psicologia Investigativa e Forense, Detecção de Mentiras, Obtenção da Verdade e Memórias Falsas. Referências: Luis, Silva. Mentiras e Memórias Falsas: Definição e Identificação, Similaridades e Diferenças. 2021. 69f. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação)- Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais- Coração Eucarístico, Belo Horizonte, 2021. Disponível em: https://drive.google.com/file/d/1NhbQ0byZAmJR_IBpYwp-QWAAjHH6znL3/view?usp=sharing

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