
(Os filósofos Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre, no Brasil, em 1960. Foto: reprodução/Getty Images)
Em 1939 o filósofo existencialista Jean-Paul Sartre (1905-1980) publicou “Esboço para uma teoria das emoções” (Esquisse d’une théorie des émotions), onde apresentou sua compreensão sobre as emoções humanas por meio de revisão da literatura e da sua proposta original em formato de ensaio.
Acabei comprando esse livro quando comecei a voltar minha linha de investigação para as emoções humanas, mas nunca tinha lido-o, até então. Posso afirmar que o começo do livro não me surpreendeu, uma vez que Sartre realiza uma introdução à fenomenologia e seus conceitos básicos como: fenômeno; redução eidética; e “colocação do mundo entre parênteses”. Além de revisar a literatura clássica e também a psicanalítica acerca do estudo das emoções. Temas esses que já me eram familiares enquanto psicólogo, professor de psicologia das emoções e emocionauta-mor. Mas a proposta de Sartre, na última parte, me soou fresca – uma novidade interessante. Como eu não havia esbarrado nela até então?
Haverá então, por exemplo, uma fenomenologia da emoção que, após ter “colocado o mundo entre parênteses”, estudará a emoção como fenômeno transcendental puro, e isto se dirigindo não a emoções particulares, mas buscando atingir e elucidar a essência transcendental da emoção como tipo organizado de consciência. […] existir é sempre assumir seu ser, isto é, ser responsável por ele em vez de recebê-lo de fora como faz uma pedra.
(Sartre, 2017, p. 22)
Bagagem Fenomenológica
Sartre parte da ideia fundadora da fenomenologia onde “toda consciência é consciência de algo” (intencionalidade), conforme encontrado em Edmund Husserl (1859-1938) e também da noção do mundo e da “realidade-humana” (dasein) como inseparáveis, conforme encontrado em Martin Heidegger (1889 -1976). A partir disso, ele rejeita a redução da experiência emocional aos componentes corporais e elege a significação como sua natureza de fato humana, ao afirmar que “A tarefa de um fenomenólogo será, pois, estudar a significação da emoção” (2017, p. 25) e, mais adiante que “um corpo não pode ser emocionado, por não poder conferir um sentido a suas próprias manifestações“. (2017, p. 28). Esse pensador elenca fatores associados como reações corporais, condutas e estado de consciência mas compreende a emoção como uma consciência – consciência essa que modifica a realidade do mundo – não alterando-o fisicamente, mas transformando o seu significado.
Sartre considera que a característica básica da emoção é o seu sentido. Sentido este que somente pode ser revelado pelo ato de tomada de consciência. Esta nova psicologia deverá visar não os fatos mas as suas significações, ‘abandonará os métodos de introspecção indutiva ou de observação empírica externa, para procurar apenas captar e fixar a essência dos fenômenos’ (p. 54).
(Sass, 2007, pp. 39-40)
A Propostra Sartreana Sobre as Emoções
Começando por conceitos e definições, ao longo do texto, Sartre chega a arriscar algumas quase-definições ou sínteses sobre a sua compreensão acerca das emoções:
- [A emoção] É uma transformação no mundo. Quando os caminhos traçados se tornam muito difíceis ou quando não vemos caminho algum, não podemos mais permanecer num mundo tão urgente e tão difícil. (p. 62).
- Em suma, na emoção é o corpo que, dirigido pela consciência, muda suas relações com o mundo para que o mundo mude suas qualidades. (p. 64).
- A emoção não é um acidente, é um modo de existência da consciência, uma das maneiras como ela compreende (no sentido heideggeriano de “verstehen”) seu ser-no-mundo. (p. 88).
Assim, ao compreender a emoção como uma modalidade da consciência, Sartre desloca o debate psicológico de uma busca pelas causas físico-químicas dos estados afetivos para um exame dos modos como a consciência transforma o mundo quando se vê limitada em seus projetos práticos. A emoção, em seu caráter essencial, não é um simples acontecimento corporal que sobrevém ao sujeito, mas sim um ato de significação — um modo de reorganizar o campo fenomenológico quando a realidade resiste, frustra ou se torna excessivamente exigente.
O autor começa seu esboço de teoria relembrando que a consciência emocional é uma consciência de mundo e que ela não se limita à tomada de consciência da própria emoção, isto é, a compreensão de que: estou com medo, estou com nojo, estou furioso etc. Após isso, traça uma espécie de relação simbiótica/ou fusionada entre o sujeito e o objeto que alimenta a respectiva emoção ao afirmar que:
sem dúvida, todos os psicólogos notaram que a emoção é desencadeada por uma percepção, uma representação-sinal etc. Mas parece, segundo eles, que a emoção se afasta em seguida do objeto para se absorver nela mesma. Não é preciso refletir muito para compreender, ao contrário, que a emoção retorna a todo instante ao objeto e dele se alimenta. […] o sujeito emocionado e o objeto emocionante estão unidos numa síntese indissolúvel (p. 56).
Resumidamente, eu poderia dizer que, para Sartre, as emoções não são descargas automáticas, mas sim ações mágicas que transformam o mundo (criações). A emoção seria uma operação, geralmente não consciente, sobre o mundo e sobre suas urgências na nossa relação ser-no-mundo. A transformação mágica onde opera a emoção não tem o poder de alterar as propriedades físicas da realidade, mas tem o poder de alterar as qualidades desses objetos que compõem a realidade e que se apresentam para nós.
Ele afirma que as emoções não deveriam ser estudadas como mais um objeto ordinário da psicologia e sua ênfase em componentes bio-comportamentais, mas sim por meio de leis particulares – as da magia – da mesma forma que ocorre com o estudo aprofundado do reino dos sonhos, da histeria ou da loucura, por exemplo: que comportam bases específicas para investigação (Sartre, 2017, pp. 77-80). Para Sartre elas são uma forma de interação ativa com o mundo e não apenas reações passivas e derivadas de componentes inatos/hereditários. Esse mundo mágico compreenderia o componente bio-comportamental mas também envolveria, principalmente, o componente da crença: da verdade percebida, onde as qualidades dos objetos são percebidas como verdadeiras.
todas [as emoções] acabam por constituir um mundo mágico, utilizando nosso corpo como meio de encantamento. […] as condutas puras e simples não são a emoção, como tampouco a pura e simples consciência dessas condutas. […] há emoções falsas que são apenas condutas. […] as condutas reduzidas a si mesmas apenas desenham esquematicamente no objeto a qualidade emocional que lhe conferimos. (Sartre, 2017, pp. 72-74)
Exemplo do Sartre
Um exemplo clássico ao longo do livro onde o autor demonstra o poder de transformação da realidade por meio das emoções é o exemplo das uvas:
estendo a mão para pegar um cacho de uvas. Não consigo pegá-lo, está fora do meu alcance. Sacudo os ombros, torno a baixar a mão, murmuro “estão muito verdes” e me afasto. Todos esses gestos, essas palavras, essa conduta, não são percebidos por eles mesmos. Trata-se de uma pequena comédia que represento debaixo do cacho para conferir às uvas a característica de “muito verdes”, a qual pode servir de sucedâneo à conduta que não posso executar. Elas se apresentavam, de início, como “uvas a serem colhidas”. Mas essa qualidade urgente logo se torna insuportável, porque a potencialidade não pode ser realizada. Essa tensão insuportável, por sua vez, torna-se um motivo para ver na uva uma nova qualidade “muito verde”, que resolverá o conflito e suprimirá a tensão. Só que não posso conferir quimicamente essa qualidade às uvas, não posso agir sobre o cacho pelas vias ordinárias. Então capto o amargor da uva muito verde através de uma conduta de aversão. Confiro magicamente à uva a qualidade que desejo. Aqui a comédia só em parte é sincera. Mas, se a situação é mais urgente e a conduta encantatória for efetuada com seriedade, eis a emoção (Sartre, 2017, pp. 64-65).

(Sartre e as Uvas Verdes. Imagem gerada por IA no CICEM via Gemini em 08/12/2025).
Com base nesse exemplo, é possível pensar em 3 momentos de análise:
- Tensão e Impotência: o obstáculo físico (“está fora do meu alcance”) cria uma tensão insuportável. O mundo prático (o koine, o plano das ações e ferramentas) frustra a consciência. A potencialidade (“poder colher a uva”) não pode ser realizada.
- O Salto Mágico (a conduta: a consciência, incapaz de modificar o objeto no plano físico e prático, adota uma conduta mágica para modificar a significação do objeto. O indivíduo realiza a “comédia” de encolher os ombros e declarar “estão muito verdes”.
- A Nova Significação: o significado das uvas é transformado de “objeto-de-desejo-inalcançável” para “objeto-indesejável-por-natureza” (o muito verde). A tensão é suprimida não pela ação prática sobre o mundo, mas pela destruição mágica do motivo original de tensão.
Exemplo do Caio
Lembro-me que estava lendo esse livro no aeroporto Zumbi dos Palmares enquanto aguardava o meu voo de Maceió (AL) para São Paulo (SP). Entre leituras e demandas do trabalho eu vi uma moça, em deslocamento, que chamou a minha atenção. Inicialmente eu pensei algo como: “parece que ela é bonita“. Então ela se sentou, abriu o laptop e começou a trabalhar. Eu confirmei: “ela é bonita“. Entre olhares para as minhas atividades e para ela, eu avancei na percepção: “ela é muito bonita“. E não parou por aí. Ela foi na cafeteria buscar algo para comer e beber e eu já comecei a me sentir um stalker: “ela é muito atraente. Uau! Que mulher interessante. Com o que será que ela trabalha?“. Depois eu já estava convencido de que ela era a minha musa do aeroporto e que eu iria fazer um texto contando a minha experiência emocional só de vê-la passar e trabalhar e comprar esfiha na lojinha. Então comecei a escrever. Ela desapareceu. Eu não a vi levantar. Eu não sei para que lado ela foi. Ela sumiu. Eu só torcia para ela estar no mesmo voo que eu e, preferencialmente, na poltrona ao lado. Eu sabia que ela não tinha mudado, fisicamente, naqueles 8 ou 10 minutos em que ela se manifestou na minha frente, mas eu compreendi como a minha emoção mudou a realidade, de uma possibilidade, para uma certeza, para uma fantasia.
Minha experiência e autoconfissão podem compreender algumas etapas de análise:
- Tensão e Impotência: a irrupção do possível e o desequilíbrio dos projetos, uma possibilidade de sentido que se anuncia: beleza, interesse, curiosidade. Isso instaurou uma tensão porque abriu um horizonte de possibilidades que começaram a reorganizar silenciosamente os meus projetos imediatos — até então centrados no trabalho, na leitura, na espera do voo. A cada microobservação, o objeto (ela) adquiriu novas qualidades intencionais atribuídas por mim: bonita → muito bonita → extremamente atraente → interessante.
- O Salto Mágico: a consciência produz um atalho para lidar com o impossível. Eu começava a me sentir “um stalker”, isso indica muito claramente que a consciência percebeu o limite: não é possível aproximar-se, não é possível fazer contato, e talvez nem seja apropriado tentar, já estaria eu invadindo-a de alguma forma?.
- Em vez de lidar com a angústia do impossível (aproximar-se, iniciar diálogo, conhecer de fato), a consciência começa a construir uma narrativa: ela é a musa do aeroporto; eu vou escrever um texto sobre isso; é quase um personagem; é uma aparição poética.
- O salto mágico consiste exatamente nisso: quando não posso mudar a situação (aproximar-me), e não posso desfazer a tensão (ela é atraente), eu mudo o modo como essa situação existe no meu mundo. Ela passa de pessoa concreta inalcançável → para figura simbólica da experiência → para musa → para tema literário → para fenômeno emocional digno de ser escrito.
- Essa operação é semelhante à das uvas: eu não posso alterar o objeto, não posso realizar a ação desejada, então altero a maneira como o objeto aparece para mim.
- Nova Significação: a aparição desaparece e se torna mito pessoal. O fato de eu não ter visto ela levantar ou ir embora intensifica a dimensão fenomenológica da história: a consciência reajusta imediatamente o significado dela, porque não tem mais o objeto concreto para estabilizar sua presença.
- Ela se torna: possibilidade perdida; presença ausente; enigma; ocasião que se desfaz; quase-visão.
- Ela não mudou fisicamente, mas a minha emoção reorganizou completamente a maneira como ela existe para mim: antes uma mulher talvez bonita no ambiente; depois: uma interferência afetiva forte, fascinante; depois: uma figura quase literária; depois: uma ausência que reorganiza a narrativa; por fim: um mito subjetivo — “a musa do aeroporto”.
- O fato de ela ter desaparecido reforça essa nova significação, pois ela não existe mais como um desafio prático, mas sim como uma memória mítica e inspiração.
Considerações Finais
O ponto central da teoria é que toda emoção é uma significação, um ato intencional da consciência que visa a um fim. Longe de ser passivamente sofrida, a emoção é uma conduta ativa, um modo de ser-no-mundo escolhido pela consciência quando se depara com uma situação de tensão insuportável no plano prático (koine).
Sartre está convencido de que homem e mundo formam uma unidade sintética, ou seja, está organizado de forma a representar uma totalidade. Com isso é possível afirmar que toda emoção é uma forma de apreender o mundo, uma interação com os objetos da realidade. Afinal, o homem é um ser-no-mundo e a emoção é um comportamento desse homem que, por assim dizer, também revela sua própria essência. (Ferreira, 2018, p. 449)
Em suma, me parece claro que Sartre não pretende apenas oferecer uma explicação psicológica: ele nos convida a repensar radicalmente a própria condição humana. As emoções, nessa perspectiva, não são acidentes internos ou ruídos biológicos, mas formas engenhosas — às vezes dramáticas, às vezes silenciosas — pelas quais reorganizamos o mundo quando ele se torna demasiado rígido, ameaçador ou insuportavelmente real.
A passagem à emoção é uma modificação total do “ser-no-mundo” segundo as leis muito particulares da magia. Mas vemos de imediato os limites de uma tal descrição: a teoria psicológica da emoção supõe uma descrição prévia da afetividade enquanto esta constitui o ser da realidade-humana, isto é, enquanto é constitutivo para nossa realidade-humana ser realidade-humana afetiva. Nesse caso, em vez de partir de um estudo da emoção ou das inclinações que indicaria uma realidade-humana ainda não elucidada como o termo último de toda investigação – termo ideal, aliás, e provavelmente fora de alcance para quem começa pela empiria -, a descrição do afeto se operaria a partir da realidade-humana descrita e fixada por uma intuição a priori. (Sartre, 2017, p. 92)
Referências e Recomendações
Ferreira, Thulio Luis. (2018). “Esboço de uma teoria das emoções”: uma crítica e uma nova compreensão à psicologia das emoções, em Jean-Paul Sartre. Sapere Aude. Belo Horizonte, v. 9 – n. 18, p. 443-451, jul./Dez. 2018 – ISSN: 2177-6342
Sartre, Jean-Paul. (2017). Esboço para uma teoria das emoções. (trad. Paulo Neves). Porto Alegre: L&PM, 2017.
Sass, Simeão. (2007). Esboço de uma Teoria Sartreana das Emoções. Reflexão. Campinas, 32 (92). p. 35-49, jul./dez., 2007
por Caio Ferreira