O estudo das emoções na história, especialmente a partir das últimas décadas do século XX, transformou-se em um campo interdisciplinar robusto, capaz de iluminar aspectos antes invisíveis das dinâmicas sociais, culturais e políticas. Entre os principais nomes desse movimento destaca-se Barbara H. Rosenwein (1945 – ), cuja formulação do conceito de comunidades emocionais tornou-se referência fundamental para a análise das normas, práticas e estruturas que regulam a vida afetiva em diferentes contextos históricos.
1. Definição do Conceito de ‘Comunidades Emocionais’ em Rosenwein
1.1 Origem e Fundamentação

(Barbara H. Rosenwein. Reprodução/ Loyola University Chicago)
O conceito de comunidades emocionais foi introduzido por Barbara H. Rosenwein no início dos anos 2000, especialmente a partir de seu artigo seminal “Worrying about Emotions in History” (2002) e consolidado em sua obra “Emotional Communities in the Early Middle Ages” (2006). Rosenwein propõe que as emoções não são universais nem invariantes, mas sim moldadas por normas, valores e práticas compartilhadas por grupos sociais específicos, que ela denomina comunidades emocionais. Cada comunidade possui seu próprio repertório de emoções valorizadas, desvalorizadas, modos de expressão e regras de avaliação.
Segundo Rosenwein, embora o potencial biológico para sentir e expressar emoções seja universal, o que constitui uma emoção, como ela é nomeada, avaliada, sentida e expressa, depende das normas culturais e sociais de cada comunidade. Assim, as comunidades emocionais são grupos que compartilham valores e modos particulares de sentir e exprimir emoções, segundo normas aceitas e partilhadas. Essas comunidades podem coexistir em um mesmo período histórico, sendo variadas e, por vezes, conflitantes.
COMO MEDIEVALISTA, tenho motivos para me preocupar com as emoções na História. Não me preocupo com as emoções em si: as pessoas no passado, assim como hoje, expressavam alegria, tristeza, raiva, medo e muitos outros sentimentos; essas emoções tinham múltiplos significados naquela época (assim como têm hoje); produziam efeitos sobre outras pessoas e, por sua vez, eram manipuladas (assim como acontece com as nossas). O que os medievalistas — na verdade, todos os historiadores que querem fazer sua História corretamente — precisam se preocupar é com a maneira como os historiadores têm tratado as emoções na História. O objetivo deste artigo é fazer um levantamento da historiografia das emoções na história ocidental e sugerir algumas novas maneiras de pensar sobre o tema.
(Rosenwein, 2002, p. 821, tradução livre)
1.2 Características Centrais
As principais características das comunidades emocionais, conforme delineadas por Rosenwein, incluem:
- Normatividade: cada comunidade estabelece normas sobre quais emoções são apropriadas, como devem ser expressas e em que contextos.
- Diversidade e Convivência: diferentes comunidades emocionais podem coexistir em uma mesma sociedade, sem que haja uma única voz dominante.
- Historicidade: as emoções mudam ao longo do tempo, acompanhando transformações nas normas e valores das comunidades.
- Expressividade: o foco está nos sinais sociais das emoções (gestos, palavras, rituais), e não em uma suposta essência interior ou autenticidade.
- Função Social: as emoções servem a propósitos políticos, morais, expressivos e sociais, unindo ou separando grupos, impondo imperativos morais ou realizando objetivos coletivos.
1.3 Distinção em Relação a Outros Conceitos
O conceito de comunidades emocionais se distingue de outros termos próximos, como regimes emocionais (William M. Reddy) e emocionologia (Stearns & Stearns). Enquanto os regimes emocionais enfatizam a dimensão prescritiva e reguladora das normas afetivas, frequentemente impostas por autoridades ou instituições, e a emocionologia refere-se aos sistemas normativos de emoções em uma cultura, as comunidades emocionais destacam a coesão afetiva de grupos que compartilham normas e estilos de expressão, sem pressupor homogeneidade ou coerção.
Ele se interessa naquilo que chama de “emocionologia” – os padrões emocionais transmitidos à classe média pelos autores de guias de aconselhamento e coisas do tipo. Stearns trata a mudança econômica e social como condutora da transformação emocional. As necessidades de uma sociedade recentemente industrializada criaram a emocionologia da era vitoriana, ao passo que o nascimento de uma sociedade do consumo e o desenvolvimento de um setor de serviços introduziram novos padrões emocionais nos anos 1920.
(Rosenwein, 2011, pp. 40-41)
O conceito foi desenvolvido em resposta a limitações percebidas nessas abordagens anteriores: a emocionologia dos Stearns (focada em padrões normativos globais) e os regimes emocionais de Reddy (ênfase em sistemas prescritivos e coercitivos). As comunidades emocionais operam de forma horizontal, enquanto os regimes emocionais operam de forma vertical. Rosenwein propõe que múltiplas comunidades emocionais coexistem em qualquer sociedade, podendo ser grandes (nações, religiões) ou pequenas (famílias, confrarias), e que indivíduos podem transitar entre elas, experimentando tensões, adaptações e conflitos. Reddy, por sua vez, reconhece a possibilidade de regimes múltiplos e refúgios emocionais, mas mantém o foco na dimensão prescritiva e política das emoções.
1.4 Tabela-resumo: Principais Conceitos e Abordagens na História das Emoções
| Conceito | Definição Central | Principais Autores | Foco Analítico | Limites/Debates |
| Emocionologia (Emotionology) | Padrões e normas emocionais de uma sociedade | Peter e Carol Stearns | Normas globais, padrões institucionais | Pode negligenciar práticas e resistências locais |
| Regimes Emocionais (Emotion Regime) | Sistemas normativos impostos por autoridades | William M. Reddy | Prescrição, coerção, política | Risco de monolitismo, ênfase vertical |
| Comunidades Emocionais (Emotional Communities) | Grupos sociais com normas próprias de sentir e expressar emoções | Barbara H. Rosenwein | Pluralidade, sobreposição, práticas locais | Risco de fragmentação, limites das fontes |
| Emoções Como Conjunto de Práticas (Emotional Practices) | Práticas corporais e performativas das emoções | Monique Scheer | Corpo, gestos, performatividade | Dificuldade de acesso em fontes históricas |
2. Obras Principais de Barbara Rosenwein sobre Emoções
2.1 Emotional Communities in the Early Middle Ages (2006)
Esta obra é considerada um marco na história das emoções. Nela, Rosenwein propõe que pessoas viveram (e vivem) em comunidades emocionais, cada uma com suas próprias normas de valoração e expressão emocional. O livro apresenta estudos de caso do início da Idade Média, como inscrições funerárias, escritos de papas e cortes reais, demonstrando a coexistência de diferentes comunidades emocionais e a influência das crenças religiosas nos estilos emocionais.
2.2 Generations of Feeling: A History of Emotions, 600-1700 (2016)
Em “Generations of Feeling”, Rosenwein expande sua análise para um período mais amplo, de 600 a 1700, mapeando as transformações nas configurações emocionais ao longo do tempo. O livro enfatiza a ideia de que as emoções são codificadas, ordenadas e racionalizadas de modos circunstanciais e contingentes, rejeitando a noção de uma história linear de domesticação das emoções.
2.3 História das Emoções: Problemas e Métodos (2011)
Publicado em português (editora Letra e Voz), este livro sintetiza as principais abordagens metodológicas para o estudo das emoções na história, destacando a importância de reconhecer a historicidade das emoções e de adotar métodos rigorosos para identificar e analisar comunidades emocionais em diferentes contextos.
2.4 Outras Obras Relevantes
Além das obras citadas, Rosenwein publicou “Love: A History in Five Fantasies” (2021), “What is the History of Emotions?” (com Riccardo Cristiani, 2018) e organizou coletâneas como “Anger’s Past: The Social Uses of an Emotion in the Middle Ages” (1998), todas contribuindo para o desenvolvimento do campo.
3. Metodologia e Abordagens Analíticas de Rosenwein
3.1 Princípios Metodológicos
A metodologia de Rosenwein parte do princípio de que o historiador das emoções deve identificar e justificar a escolha de uma comunidade emocional a ser estudada, listar as emoções expressas por esse grupo e analisar como essas emoções são valorizadas, evitadas, expressas e a que propósitos servem. O processo envolve:
- Seleção da Comunidade: escolher um grupo social relevante e justificar sua importância histórica.
- Levantamento do Vocabulário Emocional: identificar palavras, experiências, virtudes e vícios conectados com o coração ou outros órgãos simbólicos.
- Análise das Normas e Expressões: investigar quais emoções são valorizadas, como são expressas, quais são evitadas e quais funções cumprem.
- Comparação com Outras Comunidades: avaliar semelhanças e diferenças em relação a outras comunidades emocionais contemporâneas.
- Consideração da Mobilidade: refletir sobre a possibilidade de indivíduos transitarem entre diferentes comunidades emocionais.
3.2 Fontes e Evidências
A pesquisadora enfatiza o uso de fontes variadas, como textos literários, inscrições, documentos oficiais, tratados filosóficos e teológicos, cartas, crônicas e arte visual. Ela destaca que o historiador das emoções lida com sinais sociais captáveis por gestos e palavras, não sendo possível acessar um conteúdo oculto ou supostamente mais verdadeiro das emoções. Expressões formulaicas, lugares-comuns e até mesmo o fingimento são considerados reveladores das normas emocionais de um grupo.
A abordagem metodológica de Rosenwein combina rigor filológico, sensibilidade contextual e abertura interdisciplinar. Os principais elementos incluem:
- Seleção de Fontes: prioriza textos (cartas, crônicas, tratados, epitáfios, documentos eclesiásticos), mas valoriza também imagens, música e práticas corporais.
- Análise do Vocabulário Emocional: identifica termos, metáforas e expressões que denotam emoções, atentando para suas nuances e significados contextuais.
- Mapeamento de Normas e Práticas: investiga quais emoções são valorizadas, desvalorizadas, expressas ou reprimidas em cada comunidade.
- Comparação Sincrônica e Diacrônica: articula análise de casos específicos com a identificação de continuidades e rupturas ao longo do tempo.
- Atenção à Pluralidade e Sobreposição: reconhece a coexistência de múltiplas comunidades emocionais e a mobilidade dos indivíduos entre elas.
Ela também propõe exercícios práticos para estudantes e pesquisadores, incentivando a aplicação dos modelos teóricos a fontes variadas e a reflexão crítica sobre os limites e possibilidades da abordagem
Considerações Finais
Barbara H. Rosenwein ocupa posição central na história das emoções, tanto por sua trajetória acadêmica quanto pela formulação do conceito de comunidades emocionais. Suas obras oferecem ferramentas teóricas e metodológicas para analisar a pluralidade dos afetos, a historicidade das normas emocionais e a complexidade das práticas sociais. O impacto de suas ideias transcende a historiografia medieval, influenciando pesquisas sobre política, cultura, educação e saúde pública.
O conceito de comunidades emocionais representa uma das contribuições mais inovadoras e fecundas para a história das emoções. Ao enfatizar a diversidade, a convivência e a historicidade das experiências afetivas, o conceito permite compreender as emoções como fenômenos sociais, normativos e dinâmicos, superando tanto o universalismo quanto o individualismo.
A forma como ela encerra o livro de 2011 nos inspirou a buscar as emoções dentro das narrativas que nos deparamos. Dessa forma, vou destacar o trecho aqui, quem sabe ele também te inspire:
A meta fundamental
Assim como as questões de gênero estão agora plenamente integradas à história intelectual, política e social, o estudo das emoções não deveria (no fim das contas) formar um ramo separado da História, mas sim contribuir em toda investigação histórica. Dessa maneira, por exemplo, uma história da Alemanha entre as duas guerras mundiais deveria comportar uma discussão não apenas sobre a economia, as relações entre homens e mulheres, as ideologias do comunismo, do fascismo, do liberalismo, e assim por diante; mas também sobre as emoções privilegiadas – e desvalorizadas – durante aquele período pelos vários grupos dominantes e marginalizados. Ao fim e ao cabo, os problemas e métodos da história das emoções deveriam se tornar propriedade da história em geral.
(Rosenwein, 2011, p. 47)