Dentro da natureza, o homem ocupa um lugar diferente dos demais seres vivos. Enquanto observamos a natureza e encontramos uma ordem estabelecida e previsível onde o vento venta, o sol clareira, a garça ‘garceia’ e o tigre ‘tigreia’, o homem segue tanto seus instintos e se assemelha ao resto da natureza, como também decide, aprende e constrói a sua experiência, destacando-se assim do restante da natureza.
Não vejo em todo animal senão uma máquina engenhosa, à qual a natureza deu sentidos para prover-se ela mesma, e para se preservar, até certo ponto, de tudo o que tende a destruí-la ou perturbá-la. Percebo precisamente as mesmas coisas na máquina humana, com a diferença de que só a natureza faz tudo nas operações do animal, ao passo que o homem concorre para as suas na qualidade de agente livre. […] É assim que um pombo morre de fome perto de uma vasilha cheia das melhores carnes, e um gato sobre uma porção de frutas ou de grãos, embora ambos pudessem nutrir-se com os alimentos que desdenham, se procurassem experimentá-lo.
(Rousseau, 1975, pp. 17-18)

(Imagem gerada por IA: Copilot 06/2025)
O homem, diferentemente dos animais citados por Rousseau, consegue escolher comer o alpiste se estiver com fome, ou até o gato e o pombo. Dessa forma, parece-me razoável afirmar que o homem pertence a natureza e tem instinto quando nasce, inclusive, que seu instinto continua direcionando suas ações ao longo da sua vida, ideias que encontram forte ressonância na psicologia evolucionista, mas que o mesmo homem tem o potencial específico de ir além da sua biologia e da sua inata natureza, o que podemos encontrar em teorias históricas e socioconstrutivistas. Esse homem vive em comunidades emocionais, pode participar de um regime emocional e realizar um trabalho emocional em sua família e/ou ocupação laboral, sendo que, isso, por si só, já pressupõe valências, percepção e expressividade adquiridas que são associadas às emoções conforme algo aprendido e que tem origem no mundo externo.
O homem ao qual me refiro aqui tem uma tendência a ser guiado pelos seus instintos, o que envolve gatilhos, expressões e impulsos de ação intatos derivados da experiência emocional universal, mas também um homem que utiliza emblemas, cria novas possibilidades de expressão, e tenta gerenciar suas reações e tendências comportamentais, incorporando assim respostas que dependem tanto do seu sucesso individual quanto coletivo para a construção desses novos repertórios afetivos. Nesse momento, entendo que seu sucesso individual diz respeito ao gerenciamento de suas respostas e do comportar-se de forma diferente, com base naquilo que foi previamente desejado ou ensaiado, enquanto o sucesso coletivo ou social envolve a adequação dessa resposta frente a situação, bem como o possível entendimento e engajamento comunitário, não apenas aceitando esse tipo de comportamento, mas considerando a possibilidade de incentivá-lo ou enaltecê-lo também.
Os alicerces da experiência emocional encontram-se tanto no mundo interno como no mundo externo; dependem tanto na natureza quanto da criação; são tão inconscientes e automáticos quanto conscientes e deliberados, são tão universais e inatos quanto aprendidos e construídos.
REFERÊNCIAS E RECOMENDAÇÕES:
Ekman, P. (2011). A linguagem das emoções: revolucionando sua comunicação e seus relacionamentos reconhecendo todas as expressões das pessoas ao redor. São Paulo: Lua de Papel.
Firth-Godbehere, R. (2022). Uma história das emoções humanas: como nossos sentimentos construíram o mundo que conhecemos. Rio de Janeiro: Best Seller.
Knapp, M. L., Hall, J. A. & Horgan, T. G. (2014). Nonverbal communicationin human interaction (8th ed). Boston, MA: Cengage Learning.
Rosenwein, B. H. (2011). História das emoções: problemas e métodos. São Paulo: Letra e Voz.
Rousseau, J.-J. (1755). Discurso sobre a origem da desigualdade entre os homens. Amsterdam: Marc Michel Rey. p. 1-64. (disponível em: http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action&co_obra=2284) (acessado em 24/06/2025).
Por Caio Ferreira